O novo advogado empresarial
O advogado sempre foi visto como aquele profissional frequentador de
fóruns, que patrocinava o interesse de seu cliente em demandas
jurisdicionais. A grande maioria dos escritórios localizava-se nas
regiões centrais das cidades, justamente pela conveniência da
proximidade em relação aos órgãos públicos em que se estaria atuando
diariamente.
Porém, o mundo mudou profundamente. Com o passar dos anos, assistiu-se a
uma intensa e veloz modernização tecnológica, que rompeu fronteiras e
globalizou o planeta. Os reflexos deram-se em todos os segmentos da
vida. As atividades comerciais não são mais estritamente regionais. Em
segundos, pode-se pesquisar, via internet, opções de fornecedores de
determinado produto ou serviço em todo o mundo. Oscilações em bolsas de
valores reverberam instantaneamente no globo.
Portanto, diante dessa alteração no panorama mundial, questiona-se: o
advogado ainda deve possuir a postura estritamente de litigante
processual de outrora?
Entendemos que não.
O chamado “novo advogado empresarial” deve possuir habilidades
complementares, mais abrangentes, de forma a atender às reais
expectativas de seus clientes e propiciar-lhes melhores resultados.
Um primeiro viés é o de consultor. O advogado deve conhecer o
ordenamento jurídico, sua aplicabilidade e acompanhar sua constante
atualização. Deve, também, transitar por áreas sinérgicas do Direito, de
forma a conseguir prevenir possíveis ocorrências ou alertar quanto aos
riscos existentes em cada caso.
A consultoria não se restringe a aspectos jurídicos. Na área de
contratos, por exemplo, é muito importante que o advogado tenha noções
mercadológicas, de logística, de marketing, etc., para que possa prever,
com amplitude, possíveis implicações ou ocorrências de cada negócio
jurídico em questão. Na área societária, conhecimentos de contabilidade,
de finanças e de mercado de capitais, são absolutamente pertinentes e
agregadores, se é que não se pode dizer, fundamentais.
De modo geral, as empresas desejam que seu advogado conheça de forma
mais ampla as suas atividades e anteveja possíveis impactos e riscos a
serem assumidos.
Outro aspecto importante é quanto à postura do advogado. A antiga
posição formal e conservadora é substituída por uma postura mais
acessível, de interação e de maior comunicação, com transparência e
efetividade. O advogado atua em conjunto com seu cliente e auxilia-o na
tomada de decisões.
Na hipótese do cliente estar diante de um conflito de interesses com a
outra parte, o advogado passa a ser um mediador. A solução prática e
mais breve deve ser priorizada, em face da necessidade dos clientes de
demonstração de resultados.
O advogado, também, deverá ter a habilidade e a versatilidade de
conseguir propiciar mínima segurança jurídica a seus clientes, diante do
incrível descompasso constatado entre a velocidade que os negócios
ocorrem e se aprimoram e a ineficiência de nosso Poder Legislativo em
inovar ou aperfeiçoar nosso ordenamento jurídico ou a morosidade de
nosso Poder Judiciário em expressar sua interpretação sobre os temas,
principalmente em se tratando das instâncias superiores.
Pois, não raras vezes, o advogado depara-se com situações que não
possuem normas expressas que as regulem, tampouco já houve tempo hábil
para que os Tribunais expressassem suas posições, exigindo-lhe
qualidades que o advogado do passado não precisava ter.
Outro aspecto refere-se à organização interna da atividade advocatícia. Atualmente, há um fenômeno de concentração de sociedades
de advogados, com atuação multidisciplinar, substituindo gradativamente
a figura do advogado autônomo. O centro das cidades passou a ser
preterido por bairros mais nobres. E a atividade do profissional liberal
adquiriu características de empresa.
Hoje em dia, um escritório de advogados deve possuir técnicas refinadas
de gestão, de composição de custos e de preços, pois a competitividade é
grande, também abrangendo o mundo jurídico.
Técnicas de captação e relacionamento com os clientes já são estudadas
por uma nova disciplina, o marketing jurídico, tarefa complexa diante do
conservadorismo da advocacia.
O escritório deve, também, gerir bem pessoas, desenvolver planos de
carreira e zelar pela manutenção de talentos, pois, além da disputa
privada já mencionada, as carreiras públicas passaram a pagar muito
melhor do que no passado, representando um verdadeiro “concorrente”
virtual na disputa pelos melhores profissionais.
A complexidade da atividade advocatícia faz surgir um novo
profissional: o administrador jurídico. Trata-se de uma mistura de
administrador de empresas e de advogado, pois este, em regra, teve sua
formação baseada no estudo das ciências jurídicas, não tendo a expertise
necessária para fazer a gestão da “empresa”, no sentido latu sensu da
palavra, que se tornou o escritório de advocacia.
Conclui-se, portanto, que, efetivamente, surgiu a figura do “novo advogado empresarial”.
Fonte: https://jus.com.br/artigos/21079/o-novo-advogado-empresarial

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