A “Fulanização” da Política Tradicional
Opinião por Antônio Carvalho
Ao longo dos últimos anos passamos a acompanhar mudanças
significativas na leitura da conjuntura político-ideológica em todo
mundo. Um fenômeno que nos chama a atenção é uma “aversão” crescente aos
partidos políticos, independente do campo ideológico ao qual se
vinculam. Tal fato vem sendo reforçado com mudanças sistêmicas e
sintomáticas (Tea Party, nos Estados Unidos; Podemos, na Espanha;
Syriza, na Grécia), na nomenclatura de segmentos e a evidente tentativa
de enfraquecer os tradicionais partidos políticos, na forma como são
conhecidos, muitas vezes buscando utilizar de figuras tradicionais da
política ou não, como substitutos naturais do ideário do partido
político que representa.
No âmbito nacional, um elemento bastante peculiar que surge no
contexto político de forma mais enfática nas manifestações de rua em
2013, é a tentativa de se alijar os partidos políticos de eventos,
privilegiando-se, por vezes, “Salvadores da Pátria”, independendo sua
conotação (matriz) ideológica. O enfraquecimento dos Partidos Políticos
em sua formatação tradicional, pode ser um indicativo de mudanças, que
poderão ser boas ou ruins e que apenas o tempo poderá nos dizer, mas ao
traçarmos um paralelo histórico, visualizando as eleições do Brasil,
percebe-se claramente que a população praticamente não associa as siglas
aos seus filiados (e vice-versa) muitas vezes votando na pessoa e não
observando o conjunto político a que ele/ela se vincula.
Temos uma representação ainda mais latente quando analisamos
processos eleitorais em pequenos municípios (muito embora tal fato
também se repita em grandes centros urbanos) onde famílias tradicionais e
não partidos políticos são os detentores dos votos. Ainda é comum se
perguntar em quem você vai votar?, e não em qual partido você votará? Se
tal premissa se tornasse cerne da avaliação, talvez tivéssemos, no caso
específico do Brasil, um sistema político, eleitoral e partidário
fortificado, com delimitações ideológicas e programáticas bem definidas,
longe do que temos hoje, uma “sopa de letrinhas” que dizem muito pouco
ou quase nada sobre a linha ideológica a qual se vinculam e que externam
fragilidades ideológicas ao darem efetividade às coligações que muitas
vezes ligam, no mesmo bloco, gregos e troianos.
Nos pequenos rincões do Brasil, vemos claramente esse fenômeno da
“fulanização” ser apresentado de forma ampla, remetendo a população a
situação análoga aos feudos, onde as famílias se perpetuavam geração
após geração e, na forma mais recente (ou nem tanto) o coronelismo, que
dava forma a esta possibilidade de o candidato do “Coronel A”, do
“Coronel B” ou do “Coronel C” ser o escolhido ou a escolhida. Tais
formatações ainda se mantêm muito vivas na história política brasileira,
onde famílias políticas tradicionais escolhem os candidatos
(familiares) para continuarem se perpetuando nas esferas de poder,
relegando candidaturas “não tradicionais” a um plano menor, criando
estruturas de poder local ou regionais que nitidamente buscam impedir o
aprofundamento da discussão política, mantendo o uso de “grilhões
mentais” naquela população e geração após geração, impossibilitando o
avanço político na localidade.
Não quero (ou não me proponho agora) fazer uma análise maniqueísta,
do bem e do mal, de qual partido representa melhor o segmento A ou B,
principalmente ao analisar que neste momento o Brasil vive uma
perspectiva delicada, onde muitos tergiversam e não assumem suas
convicções ideológicas (conscientes ou não), reforçando direta ou
indiretamente a ideia de que precisamos abandonar os partidos políticos
tradicionais.
Alguns passos foram dados (por partidos tradicionais) para tentar se
desvincular da concepção política partidária que ainda é dominante,
mudando seus nomes, abolindo a expressão “Partido”, com a clara intensão
de se mostrar em nova face para a sociedade, embora adotem, por vezes,
práticas tão antigas que não os desvinculam de seu passado. Outros se
configuram, igualmente sem o nome “Partido”, mas numa profusão de
identidades ideológicas que mais os assemelhariam a uma colcha de
retalhos desconexa, com viés nitidamente eleitoreiro.
Uma reflexão profunda precisa ser feita acerca do tema, pois nos
momentos históricos em que indivíduos foram investidos na condição de
“Salvadores da Pátria”, os efeitos foram devastadores. A Alemanha de
Hitler e a Itália de Mussolini são exemplo clássico disto. Quando
partidos políticos foram desprezados no seu papel de condutores dos
anseios sociais, nasceram as representações de ódio e totalitarismo mais
marcantes como o Nazi-Fascismo. A abolição dos partidos políticos, por
si só não caracterizará mudanças efetivas da cultura política, mas
certamente poderá nos conduzir a períodos obscuros, com reflexos diretos
em conquistas históricas, as quais podem ser colocadas em risco pela
falta de percepção de uma realidade que se avizinha.

Comentários
Postar um comentário