Laço entre criança e pai socioafetivo impede guarda a pai biológico, diz TJ-SP
Mesmo que o pai biológico de um menor de idade demonstre carinho e
atenção, o pai socioafetivo tem direito de ficar com a guarda quando
comprova que acompanha a criança diariamente, desde seu nascimento, pois
esse laço não deve ser rompido. Assim entendeu a 10ª Câmara de Direito
Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo ao definir a guarda
provisória de um menino de cinco anos, depois que a mãe dele morreu.
O pai socioafetivo namorava a mãe do garoto quando ela contou que
estava grávida de outro homem. O casal chegou a se separar, mas reatou o
relacionamento e se casou meses depois. Quando a mulher morreu, em
2015, o marido foi à Justiça para continuar vivendo com o menino,
alegando que o pai biológico decidiu levá-lo para outra cidade.
Segundo o advogado Cid Pavão Barcellos,
que representou o pai socioafetivo, o cliente acompanhou a gravidez,
foi o primeiro a segurar o bebê no colo depois do parto e desde então
participou de várias atividades, inclusive escolares. Ele apontou ainda
que o menino vivia com a irmã materna, nascida meses depois do
casamento, e via o pai biológico quinzenalmente.
Em primeiro grau, o pai socioafetivo conseguiu liminar para ficar com a criança.
O pai biológico recorreu, sob o argumento de sempre ofereceu “amparo
material e afetivo” e que o filho já havia se adaptado à nova rotina, em
outra casa. O relator do caso, Elcio Trujillo, votou favorável a esse
entendimento, mas venceu a tese divergente do desembargador Carlos
Alberto Garbi.
“Durante quase quatro anos o agravado, o cônjuge da
genitora da criança dispensou ao menor, diariamente, os cuidados
decorrentes do poder familiar. Nesse período foi estabelecida a rotina
da criança, a qual, a cada 15 dias, deixava a residência na cidade de
São Pedro para conviver com seu pai biológico e retornava ao convívio
com o agravado, sua genitora e sua irmã materna”, apontou Garbi.
Por
isso, segundo ele, “não há como desconstituir o vínculo paterno
[anterior], pois ainda que posteriormente a criança tenha passado a
residir com seu pai biológico, é certo que o agravado conferiu ao menor
durante todo esse período tratamento de filho”.
O desembargador
considerou que a paternidade não se baseia apenas em “fato biológico”,
citando tese da jurista Maria Berenice Dias, e apontou estudo social
reconhecendo que o pai socioafetivo tem “vida estabilizada, boa formação
familiar e bons princípios morais”. A guarda temporária vale até novo
estudo psicossocial.
Clique aqui para ler o acórdão.
Comentários
Postar um comentário